“Que coisa mais difícil é o começo… Sair do ovo faminta, procurar comida, sobreviver, aprender sobre a natureza de tudo, olhar para a grandeza do mundo. É preciso mesmo trocar de pele muitas vezes, rastejar entre as folhas, fugir dos perigos, esconder-se dos gaviões, descobrir o prazer do chão e de ser lagarta… Crescer. É um trabalho duro e fascinante.

Que coisa mais impressionante é a capacidade de transformar-se… Descobrir, dentro de sua própria natureza, a força para recolher-se, isolar-se do mundo… Compreender-se. Ficar fechada em um casulo seguro, onde só você sabe o que acontece. Criar um corpo diferente, um jeito diferente, puxar da própria forma um novo ser… Deixá-lo amadurecer até que fique pronto… Sem pressa, sem medo, aprendendo a dor e a gostosura de metamorfosear.

Que coisa mais corajosa é sair de um casulo… Forçar uma abertura, voltar para o mundo, abrir um pequeno buraco para a luz entrar e a partir dele esforçar-se para sair inteira… Esticar com força as asas sob o sol e de repente ver-se completamente diferente… Pronta para voar.

Que coisa mais incrível é a beleza… Não a beleza óbvia, aparente. Mas a beleza dos detalhes… As cenas mais íntimas, os planos mais inusitados, os ângulos mais fiéis, uma fresta, uma poesia em forma de olhar. Uma asa colorida, desenhada e nunca igual a outra… A beleza de ser única, e ao mesmo tempo ser tantas, e ao mesmo tempo ser simples, ser comum… A beleza de ser quem se é. A beleza de voar e ver um outro mundo… Um mundo belo. Muito belo.

Captar a beleza do ser, do afeto, do ato, e guardá-la em imagens estáticas… Mas que movimentam tudo lá dentro – esse é o maior e mais bonito vôo.”

 Texto da querida Karina Cabral, feito especialmente para mim.